Amérique du Sud

Por que Trump quer agora conversações com o Irã

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5/6/2019, Asia Times

Diferentes do lendário ‘Smoke on the Water’ de Deep Purple – “Viemos todos a Montreux, à margem do Lago Geneva” –, as reuniões do 67º Encontro do Grupo Bilderberg não produziram nem fogo nem fumaça no luxuoso Fairmont Le Montreux Palace Hotel.

Os 130 convidados de escol passaram horas de prazer – teoricamente calmas – no “fórum de discussões informais sobre grandes questões”, categoria “o freguês tem sempre razão” [ing. self-billed]. Como sempre, dois terços, pelo menos, eram executivos europeus; o resto veio da América do Norte.

O fato de que uns poucos grandes atores nesse Valhalla atlanticista sejam intimamente associados ou com capacidade para interferir diretamente com o Banco de Compensações Internacionais [ing. Bank for International Settlements (BIS)] em Basel – o banco central dos bancos centrais – e, claro, detalhe.

A grande questão discutida esse ano foi “Uma Ordem Estratégica Estável”, empreitada grandiosa que se pode interpretar seja como a construção de uma Nova Ordem Mundial, seja como esforço bem-intencionado, por elites generosas, para guiar a humanidade no rumo das luzes e do esclarecimento.

Outros itens de discussão eram muito mais pragmáticos – de “O Futuro do Capitalismo”, até “Rússia”, “China”, “Mídia Sociais usadas como arma”, “Brexit”, “O que acontecerá com a Europa”, “Ética da Inteligência Artificial” e por último, mas não menos importante, “Mudança climática”. 

Discípulos Antístenes diria que desses tópicos, precisamente, se faz a Nova Ordem Mundial.

O presidente do comitê que dirige Bilderberg desde 2012, é Henri de Castries, ex-CEO de AXA e diretor do Institut Montaigne, importante think-tank francês.

Um dos convidados chave esse ano foi Clement Beaune, conselheiro do presidente Emmanuel Macron da França, para Europa e G20.

Bilderberg orgulha-se de manter para seus trabalhos a Regra Chatham House, segundo a qual os participantes podem usar como queiram todas as preciosas informações que desejem, porque os participantes do encontro comprometem-se a não revelar a fonte de coisa alguma – informação sensível ou o que tenha sido dito.

Ajuda a cultivar o sigilo lendário de Bilderberg – e fonte de inspiração para infinidades de teorias de conspiração. Mas não significa que o segredo dos segredos não seja revelado.

O eixo Castries/Beaune nos presenteia com o primeiro segredo aberto de 2019. Foi Castries no Institut Montaigne que “inventou” Macron – aquele perfeito espécimen produzido em laboratório, de banqueiro de aquisições e fusões a serviço do establishment, em pose de progressista.

Fonte em Bilderberg fez saber, discretamente, que o resultado das recentes eleições parlamentares na Europa foi interpretado como vitória. Afinal, a derradeira escolha aconteceu entre (i) uma aliança neoliberais & Verdes e (2) um populismo de direita. Absolutamente nada a ver com valores progressistas.

Os Verdes que venceram na Europa – diferentes nisso dos Verdes-EUA – são todos perfeitos imperialistas humanitários, para citar a esplêndida neologia cunhada pelo físico belga Jean Bricmont. E todos rezam no altar do politicamente correto. O que conta, do ponto de vista de Bilderberg, é que o Parlamento Europeu continuará a ser comandado por uma pseudo-esquerda que insiste em defender a destruição do estado-nação.

O tique-taque do relógio dos derivativos não para

O grande segredo Bilderberg para 2019 teve a ver com por que, de repente, o governo Trump resolveu que quer conversar com o Irã “sem pré-condições”.

Tem tudo a ver com o Estreito de Ormuz. Bloquear o Estreito pode interromper o fluxo de petróleo e gás do Iraque, Kuwait, Bahrain, Qatar e Irã – 20% do petróleo do mundo. Houve alguma discussão sobre se pode mesmo acontecer, ou não – sobre se a 5ª Frota dos EUA estacionada ali perto, poderia impedir Teerã de fazer tal coisa; e sobre se o Irã, que tem mísseis antinavios ao longo de toda a fronteira norte do Golfo Persa, chegaria a tal ponto.

Fonte norte-americana disse que chegaram estudos à mesa do presidente Trump, que provocaram pânico em Washington. Mostravam que, no caso de o Estreito de Ormuz ser bloqueado, não importa o motivo, o Irã tem poder para pulverizar o sistema financeiro global, ao fazer voar pelos ares todo o comércio global de derivativos.

O Banco de Compensações Internacionais disse ano passado que “o total possível de todos os contratos derivativos” era $542 trilhões, embora o valor bruto de mercado declarado fosse de apenas $12,7 trilhões. Outros sugerem que esteja em $1,2 quatrilhão ou mais.

Teerã não falou abertamente dessa “opção nuclear”. Mas, sim, o general Qasem Soleimani, comandante da Força Quds do Corpo de Guardas da Revolução Iraniana e bête noire do Pentágono, já evocou o assunto em discussões internas no Irã. A informação circulou devidamente para França, Grã-Bretanha e Alemanha, os membros de grupo UE-3 para o acordo nuclear iraniano (tecnicamente, Joint Comprehensive Plan of Action), onde também causou pânico.

Especialistas em derivativos de petróleo sabem bem que, se o fluxo de energia no Golfo for bloqueado, pode fazer o preço do barril saltar para $200, e até mais alto, por longo período. Derrubar o mercado de derivativos criaria depressão global sem precedentes. O secretário do Tesouro de Trump, Steve Mnuchin, ex-Goldman Sachs, é especialista nesse assunto.

E o próprio Trump parece ter dado o jogo por perdido. Já está na mídia dizendo que o Irã não tem qualquer valor estratégico para os EUA. Segundo a fonte norte-americana: “Trump só quer encontrar saída honrosa para a arapuca na qual seus conselheiros Bolton e Pompeo o meteram. O Irã não está pedindo conversações. Os EUA, sim, já pediram.”

O que nos leva à viagem do secretário de Estado Mike Pompeo, com demorada parada, não agendada, na Suíça, ali, ao lado de Bilderberg, só porque é “fã de queijo e chocolate”, palavras dele.

Fato é que qualquer cuco de relógio anunciaria o quanto precisava tranquilizar os medos das elites transatlânticas, para nem falar dos encontros a portas fechadas com os suíços, que representam o Irã nos contatos com os EUA. Depois de semanas das mais ferozes ameaças, os EUA disseram que “não haverá pré-condições” em conversas com Teerã, promessa feita em solo suíço.

China demarcou suas linhas no chão

Bilderberg não conseguiria não discutir a China. Por regra de justiça geopolítica, virtualmente no mesmo momento a China disparava vigorosa mensagem para Oriente e Ocidente, – no Diálogo Xangrilá em Singapura.

O diálogo Xangrilá é o principal fórum anual de segurança da Ásia e, diferente de Bilderberg, realiza-se sempre no mesmo hotel, Orchard Road em Singapura. Como Bilderberg, Xangrilá também discute “grandes questões de segurança”.

Pode-se dizer que Bilderberg formata as discussões como se vê em recente matéria de capa de semanário francês que pertence a um oligarca simpatizante de Macron, “Quando a Europa governava o mundo”. Xangrilá, por sua vez, discute o futuro próximo – quando a China poderá realmente estar governando o mundo.

Pequim enviou delegação de primeira linha ao fórum esse ano, liderada pelo Ministro da Defesa General Wei Fenghe. No domingo, o general Wei demarcou claramente as linhas vermelhas intransponíveis da China; alerta explícito contra “forças externas” que sonham com independência para Taiwan; e o “legítimo direito” de Pequim de expandir as ilhas artificiais no Mar do Sul da China.

Pessoal já havia até esquecido o que o secretário interino da Defesa dos EUA Patrick Shanahan dissera um dia antes, quando acusou Huawei de ser próxima demais de Pequim e de representar risco de segurança para a “comunidade internacional”.

O general Wei achou tempo para triturar Shanahan: “Huawei é empresa privada, não é empresa militar (…) O fato de o presidente da Huawei ter prestado serviço militar, não faz da empresa dele item de equipamento militar. O que foi dito não faz sentido algum.”

Xangrilá é, pelo menos, transparente. No caso de Bilderberg, nada vazará do que os Mestres do Universo disseram às elites ocidentais sobre a lucrabilidade de prosseguir a guerra ao terror; o movimento na direção da total digitalização do dinheiro; o reinado absoluto dos organismos geneticamente modificados; e o modo como a mudança climática será usada como arma.

Pelo menos o Pentágono não fez segredo, mesmo antes de Xangrilá, de que Rússia e China têm de ser contidas a qualquer custo – e os vassalos europeus que entrem na linha.

Henry Kissinger participou de Bilderberg 2019. Boatos de que teria passado todo o tempo tentando fazer funcionar o seu “Nixon reverso” – seduzir a Rússia, para conter a China – podem ser muito exagerados.

QNavy

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