Amérique du Sud

Para ler Bacurau

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(1) Quais referências estão por trás do filme Bacurau
5/9/2019, Marcelo Miranda (Saco de Ossos) e Ruy Gardnier, para Nexo Jornal[1] Foto origen: Hollywood Reporter

A pedido do ‘Nexo’, dois críticos de cinema falam sobre gêneros e obras evocados pelos diretores. Foto: Divulgação

Antes mesmo de estrear no Brasil, em 29 de agosto de 2019, o filme Bacurau já havia sido assistido por mais de 20 mil pessoas em disputadas pré-estreias. No primeiro fim de semana em cartaz, arrecadou R$ 1,5 milhão de bilheteria e foi visto por mais de 86 mil espectadores. O público é equivalente ao alcançado ao longo de cinco meses por O som ao redor (2012), também dirigido por Kleber Mendonça Filho, segundo disse o próprio cineasta, no Twitter. Em Bacurau, Mendonça Filho divide direção e roteiro com Juliano Dornelles. Ambientado “daqui a alguns anos”, o filme se passa em torno do ataque estrangeiro a uma vila sertaneja no oeste de Pernambuco: Bacurau.

Seus habitantes – um professor, uma médica, bandidos, velhos e crianças – se unem para resistir às investidas sanguinolentas dos invasores, em uma contraofensiva violenta à altura dos ataques. Contestada por alguns críticos de cinema e apreciada por outros, a brutalidade de Bacurau tem feito a plateia vibrar nos cinemas, segundo relatos de espectadores. “Se, de alguma forma, as pessoas se sentem abstratamente justiçadas ao ver esse filme, é porque ele trabalha a ideia de um pessoal que se agrupa e responde às injúrias feitas a eles, e isso ressoa politicamente com o clima no Brasil hoje, sobretudo para quem tem uma leitura de que essa ascensão da direita representa o fim de um pacto republicano”, disse ao Nexo o crítico de cinema Ruy Gardnier.

O filme tem suscitado leituras políticas associadas ao governo de Jair Bolsonaro, mas começou a ser idealizado em 2009 e teve as filmagens concluídas no primeiro semestre de 2018. Para Gardnier, apesar de tocar em aspectos como a autonomia do povo sobre sua terra, o filme não tem como objetivo primordial falar do Brasil de agora e trata, na verdade, de um embate mais amplo. Além de uma profusão de análises sobre seus sentidos políticos, Bacurau tem despertado uma busca pelas influências que o compõem.

A pedido do Nexo os críticos de cinema Marcelo Miranda, do podcast Saco de Ossos [o filme é discutido em dois episódios: #11 (11/08/2019, entrevista com Juliano Dorneles, co-roteirista) e #12 (17/08/2019, entrevista com Kleber Mendonça Filho], e Ruy Gardnier destrincharam as referências usadas e reconfiguradas pelo filme:

Cinema americano da década de 1970

Bacurau se relaciona com o imaginário do cinema de gênero internacional – produções de características bem demarcadas como pertencentes a categorias como horror, suspense, ficção científica –, especialmente o americano. Estilizadas e esteticamente bem construídas do ponto de vista da mise-en-scène, dos cortes e do tempo, as sequências de violência do filme brasileiro emulam, segundo Miranda, o tipo de cinema feito na década de 1970 por diretores como Sam Peckinpah, Don Siegel e William Friedkin.

Foto: Reprodução Cena de Meu Ódio Será Sua Herança (1969), de Sam Peckinpah

“São cineastas que têm a violência como uma explosão, como algo absolutamente inesperado e surpreendente. Ela aparece no filme de rompante, não dá nem tempo de virar o rosto. Isso está muito bem representado na sequência da cabana em ‘Bacurau’”, disse o crítico ao Nexo.

“Tive a sorte de ver o bom momento do cinema americano popular [na década de 1970]. Na verdade, aprendi, já ali, que é possível ser popular e bom. Você não precisa ser popular e ruim. Autoral e inacessível, que eu acho que é uma distorção que existe no cinema brasileiro. Existe sempre o abismo entre filme popular e filme autoral, que é exatamente a junção que tento fazer nos meus filmes” (Kleber Mendonça Filho Em entrevista à revista Continente).

A obra do diretor John Carpenter

O tom e a atmosfera de Bacurau trazem muito do cinema de John Carpenter (Assalto à 13ª DPHalloween: A Noite do Terror), de quem os diretores de Bacurau são admiradores confessos. De Carpenter, o filme brasileiro empresta o clima de estranhamento criado quando algo fora do normal, uma entidade externa, invade um ambiente ou comunidade já estabelecida, sem que se saiba a princípio se tratar ou não de um fenômeno sobrenatural. Há ainda alusões mais explícitas ao diretor, entre elas o nome da escola de Bacurau”, chamada “João Carpinteiro”, e a presença de uma música composta por Carpenter, Night, na trilha sonora de Bacurau.

A relação com o faroeste

A estrutura do longa também vem sendo comparada a um filme de faroeste, gênero caracterizado, no geral, por disputas armadas de território. Para Marcelo Miranda, porém, a relação de Bacurau se dá mais com o faroeste italiano, chamado de western spaghetti, do que com o americano. Os faroestes italianos normalmente tematizavam pequenas comunidades do oeste americano. Algum tipo de presença externa alterava a dinâmica da cidade, e o enredo terminava em um confronto sangrento.

Companheiros (1970), de Sergio Corbucci, foi uma inspiração importante para o filme nacional. Foto: Divulgação Cartaz do Filme Companheiros, de Sergio Corbucci

A vertente italiana do gênero se tornou popular na década de 1960, principalmente a partir dos filmes do diretor Sergio Leone, como Por um punhado de dólares (1964).

A influência do Cinema Novo

Bacurau faz ainda referências visuais ao próprio cinema brasileiro, em especial ao sertão apresentado por Glauber Rocha em filmes como Deus e o diabo na terra do sol (1964) e O Dragão da Maldade Contra O Santo Guerreiro” (1969). Foto: Divulgação Cena de O Dragão da Maldade Contra O Santo Guerreiro, de Glauber Rocha

Esse último é apontado por Miranda e Gardnier como o mais próximo, política e visualmente, do filme de 2019. Nele, uma cidade nordestina isolada também precisa enfrentar elementos vindos de fora. “Quando fiz Enjaulado, que estreou no Cine Ceará em 1997, a primeira crítica que saiu foi de um cara dizendo que era um absurdo um realizador do Nordeste, ‘uma região tão forte em folclore’, fazer um filme de paulista, dentro de um apartamento.

Isso era o Cinema Novo ensinando a esse cara a como reagir a um filme brasileiro. (…) Hoje, você vê Divino amorPermanênciaPaís do desejoFebre do rato. Nenhum problema em ser da cidade. Isso acabou. É muito curioso ver que o início da grande produção pernambucana era, de certa forma, inovadora e refrescante, mas ainda obedecia às obrigações do cinema brasileiro da época. (…) Aos poucos, a produção foi mudando. E quando a produção mudou, o que a gente faz? Faz Bacurau, que é um filme no Sertão e com cangaço” (Kleber Mendonça Filho, em entrevista à revista Continente).

O filme de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho remete ainda a Brasil ano 2000 (1969), de Walter Lima Jr., e contém uma referência explícita ao filme A hora e a vez de Augusto Matraga (1965), de Roberto Santos. A trilha de Bacurau se apropria de Réquiem para Matraga, música composta por Geraldo Vandré  para o filme de 1965. A letra, para Gardnier, tem “claras ressonâncias dramáticas” no filme contemporâneo. 


(2) Uma crítica do filme Bacurau

10/9/2019, Diego Milão, O Cafezinho

No espaço entre o eu e o outro cabe uma imensidão. Ou não cabe. Cabe o som que nos rodeia. Também cabe o silêncio. Cabe só um apartamento. Cabe o sertão inteiro. Cabe um Brasil que já não cabe em si. Ou não cabe. Cabe um cachorro no quintal. Cabe um mar com tubarão. Ou apenas uma colônia de cupins a corroer memórias. Cabe uma canção. Um céu cheio de estrelas. Cabe uma distância daquelas que só se percorre com a velocidade de um disco-voador. E quando percorrida, deixa de caber. Não nos cabe.

Mas tudo isso cabe nos filmes do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho (O Som ao Redor e Aquarius), que possuem o tema do espaço como um elemento em comum. E assim também ocorre com Bacurau, novo filme de KMF codirigido por Juliano Dornelles, que recebeu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes deste ano e já pode ser visto nos cinemas brasileiros.

Há muito mais que estrelas, satélites e objetos não identificados no universo com o qual Bacurau se abre. Para além do espaço sideral, os espaços físicos do macrocosmo retratado por uma visão da Terra nada eurocêntrica e do microcosmo caracterizado pelo vilarejo do sertão de Pernambuco que dá nome ao filme expressam, quase como uma metáfora ou alegoria, os espaços culturais, sociais e históricos que tomarão conta da narrativa do filme.

Bacurau é sobre o sertão, mas, como bem notou Guimarães Rosa, “o sertão é do tamanho do mundo”. Assim, Bacurau não deixa de ser sobre o nordeste brasileiro, sobre a riqueza e complexidade de sua formação cultural e humana, mas o nordeste está sobretudo na linguagem que o filme adota para contar uma história tão universal quanto sua cena de abertura. O sertão é do tamanho do mundo porque a partir dele e com ele é possível interpretar e compreender a história da nossa civilização no âmbito da luta por espaço, da afirmação e preservação de espaços, nos mais diversos sentidos da palavra. Cabe um mundo todo em Bacurau.

Assim, Bacurau retrata uma história cíclica. Vai de Canudos à Guerra do Vietnã, passando pelo Gueto de Varsóvia. E vai também de Pernambuco a São Paulo, de Manaus ao Rio de Janeiro. Vai, mesmo sem ir. Bacurau está aqui do nosso lado, mesmo estando distante. Bacurau é sobre a Maré, sobre Eldorado dos Carajás, sobre as reservas indígenas, sobre quilombos, sobre colonização, é sobre a população em situação de rua no centro de São Paulo, sobre movimentos sociais e revoltas populares. É, mesmo sem ser. E é também sendo.

É sobre violência institucionalizada, território, identidade, autodeterminação e resistência.

Nesse sentido, é impressionante como o filme pode ser interpretado a partir de conceitos de filosofia social e política desenvolvida por autores de diferentes países, em diversas épocas e que pensaram o mundo a partir de uma perspectiva histórica e das relações humanas (e talvez esteja aqui mais uma prova da universalidade da narrativa de Bacurau).

Bacurau é o que há no espaço entre o eu e o outro, o outro como objeto estranho, alienígena, o outro visto desde a Grécia antiga como bárbaro simplesmente por não ser grego, o outro conceituado por Carl Schmitt como o inimigo que dá suposta identidade à nação. Bacurau é também a velha relação entre oprimido e opressor, retratada nas peças e poemas de Bertold Brecht e problematizada na pedagogia de Paulo Freire (pensadores que também estão presentes, de certa maneira, na forma como a produção de Bacurau se comunicou com o vilarejo de Barra, no Seridó, onde o filme foi gravado, incluindo os moradores como atores e posteriormente exibindo a película em praça pública).

Bacurau vai além do sertão de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, permeia a banalidade do mal de Hannah Arendt e a biopolítica de Foucault até chegar ao campo de Giorgio Agamben.

Como pensado pelo filósofo italiano em seu Projeto Homo Sacer – que nomeia o conjunto de sua obra recente –, biopolítica e estado de exceção são fenômenos correlatos, reflexos e, em certo ponto, dependentes um do outro, sendo que o produto dessa relação é o espaço do campo, produtor de vida nua, onde reside a figura histórica e completamente atual do homo sacer, o indivíduo entendido como matável e insacrificável e que está ligado à imposição do poder soberano.

Segundo Agamben, as características de impunidade da matança (impune occidi) e de exclusão do sacrifício (neque fas est eum immolari), características do homo sacer que constituem justamente a vida sacra ou vida nua, são situações de exceção. O impune occidi configura uma exceção do ius humanun, uma vez que suspende a aplicação da lei sobre homicídio. O neque fas est eum immolari enuncia uma exceção do ius divinum e de toda e qualquer forma de morte ritual, ou seja, aquela regulada por um ordenamento jurídico válido.

Com isso, conforme o filósofo, no caso do homo sacer uma pessoa é simplesmente posta para fora da jurisdição humana sem ultrapassar para a divina, configurando-se, pelo banimento, uma zona de indeterminação na qual a vida sacra ou vida nua se caracteriza. Assim, para Agamben, “Soberana é a esfera na qual se pode matar sem cometer homicídio e sem celebrar um sacrifício, e sacra, isto é, matável e insacrificável, é a vida que foi capturada nesta esfera” (Giorgio Agamben, Homo Sacer: O poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: Ed. UFMG). A vida nua ou vida sacra constitui, assim, o conteúdo primeiro do poder soberano.

O desaparecimento de Bacurau dos mapas oficiais e dos sinais de satélite enuncia: Bacurau é o sertão, mas Bacurau é também o campo. O campo como paradigma biopolítico moderno, o campo como não lugar, o campo como o espaço próprio do estado de exceção. E como alerta Agamben, é preciso que se aprenda a reconhecer as metamorfoses e os travestimentos do campo.

Conforme observa o autor, “o campo não é um fato histórico e uma anomalia pertencente ao passado (mesmo que, eventualmente, ainda verificável), mas, de algum modo, como a matriz oculta, o nómos do espaço político em que ainda vivemos.” (Giorgio Agamben, Meios sem fim: Notas sobre a política, “O que é um campo”, Ed. Autentica).

Talvez por isso Bacurau seja tão atual, mesmo que o roteiro tenha começado a ser escrito há dez anos.

Assim, o fenômeno do campo retratado por Agamben pode ser verificado pelo esquecimento, abandono e marginalização de determinados territórios pelo Estado dito Soberano, deixando-os a toda sorte, sem qualquer tipo de proteção e garantia de qualquer direito, conferindo aos indivíduos que ali residem a vida sacra, a condição de homo sacer e, como tais, matáveis e insacrificáveis. Mesmo não tendo cometido nenhum crime, já estão banidos da sociedade civil e dos seus ritos de toda espécie, inclusive, como não poderia deixar de ser, do devido processo legal. Eis a insacrificabilidade.

A vida dos que residem no campo não é (na visão do Soberano) um bem jurídico a ser protegido, logo, quem os mata não recebe qualquer tipo de punição. Eis a matabilidade. Eis o estado de exceção como paradigma de governo.

Bacurau é um retrato dessa política de exceção, que se caracteriza, em um primeiro momento, por um “deixar morrer”. Mas Bacurau resiste. As instituições ausentes no vilarejo logo são substituídas por uma forte ideia de comunidade, por uma nova ágora. A ordem política é substituída por uma ordem humana, que se personifica. Nesse sentido, é relevante destacar a relação alegórica entre as personagens Domingas e Carmelita (que morre aos – não por acaso – 94 anos de idade, representando também o fim de mais um ciclo histórico).

Porém, a resistência de Bacurau não se dá somente com a construção de uma ordem humana e de um código social pautados em uma democracia participativa, mas se dá também com anomia. Esse “deixar morrer”, retratado no filme pela situação extrema da privação de água (muito mais por uma questão política do que geográfica) e, por consequência – como nos lembra a água que transborda do caixão de Carmelita – como uma restrição ao ser, levará a uma crise da legitimidade do poder político e do seu sistema jurídico, com uma consequente “violação” por convicção das normas do Estado dito Soberano. E com isso temos a personagem Lunga.

Lunga evoca o cangaço, mas Lunga é também um poema de Brecht, especialmente uma estrofe: “Do rio que tudo arrasta / Se diz que é violento / Mas ninguém diz violentas / As margens que o comprimem” (ou que o secam).

No entanto, como a história bem nos ensina, resistência – quase sempre – é respondida com repressão. Aqueles que ocupam o governo oficial querem impor a soberania de Estado, querem produzir vida nua, implantar a exceção no indivíduo para transformá-lo em homo sacer (literalmente ‘homem sagrado’, isto é, ‘homem a ser julgado pelos deuses’). A água se transforma em sangue e o estado de exceção implantado em Bacurau assume um novo ato após a má (ou boa) recepção que o vilarejo dá ao prefeito: o “fazer morrer”.

E nesse ponto ocorre uma das grandes ideias do roteiro, que passa a trabalhar ainda mais com uma distopia de dimensões propositadamente não esclarecidas. Várias hipóteses surgem no pensamento de quem assiste ao filme: seria um jogo ou uma invasão? Uma guerra civil ou atração turística? Institucionalizado ou individualizado? Público ou privado? Política de Estado ou exploração comercial? Mas a distopia que atingirá o Brasil em um futuro próximo também está na impossibilidade de demarcar essas distinções.

O que ocorre em Bacurau não precisa ser uma coisa ou outra: o que ocorre em Bacurau pode ser tudo isso ao mesmo tempo. Em Bacurau, assim como a água, a repressão do Estado é também privatizada ou, ao menos, concedida, terceirizada e, com isso, transformada em mercadoria e em espetáculo. Talvez seja esse também o motivo das execuções públicas no Vale do Anhangabaú, da qual temos conhecimento por uma notícia na TV. O que pode também explicar o sistema de pontos entre os “jogadores” como um mero cumprimento de metas para o recebimento de bônus no final do mês.

Nesse pacote neoliberal (ironicamente incentivado até mesmo por funcionários públicos), a soberania (nesse sentido agambeniano e no sentido originário do termo) também é concedida. E isso fica claro na sequência de cenas em que forasteiros brasileiros equivocadamente pensam que podem comportar-se como se americanos ou europeus fossem, como se ainda detivessem a soberania que acabaram de entregar. O novo Soberano não demora muito para reafirmar o seu poder de produzir vida nua e logo lembra aos forasteiros do sul do Brasil que qualquer indivíduo pode ser capturado em sua esfera, qualquer um pode vir a ser homo sacer, matável e insacrificável, mas somente o Soberano pode decidir quem o é. Soberano é quem decide sobre o estado de exceção.

No entanto, Bacurau também resiste a essa segunda faceta do campo. E resiste porque, ao contrário dos forasteiros, Bacurau possui consciência das suas raízes, não esquece a sua história, preserva a identidade de sua gente e de sua cultura. Diferentemente da realidade, na ficção de Bacurau os museus não são consumidos pelo fogo. A educação não é tratada como mercadoria que se carrega na caçamba de um caminhão, livros são tijolos apenas no sentido figurado e certamente, se pudéssemos consultar a biblioteca do Professor Plínio, encontraríamos vários exemplares de Paulo Freire. Quando a educação é libertadora, o sonho do oprimido não é se tornar o opressor.

Contra esse poder Soberano produtor de exceção, de vida nua, Bacurau retoma a soberania no sentido original da palavra, defendendo o direito à autodeterminação de seu povo e estourando em mil pedaços qualquer pensamento (ou não pensamento) de quem pretende subjugar a sua gente. Cansados de tomarem naquele lugar, eles deixam de lado o supositório inibidor de humor dado pelo Estado para produzir uma sociedade apática e escolhem tomar a pílula de Damiano, um poderoso psicotrópico.

Bacurau decide assim pela autodeterminação, em detrimento do marasmo.

No entanto, apesar dos esforços de Malcolm X para nos lembrar que não se deve confundir a reação do oprimido com a violência do opressor, mais uma vez a história da nossa civilização tristemente nos ensina que o direito à resistência e à desobediência civil é rotulado como mera violência por aqueles que pretendem manter o monopólio da força, enquanto repelem qualquer possibilidade de diálogo e utilizam-se de uma real violência mascarada de juridicidade ou missão divina para impor sua dominação ao outro.

Não devemos cometer o mesmo erro com o filme. Não se deve reproduzir uma das falas finais de Michael. Seria incorreto classificar Bacurau como violento. Há um certo paradoxo: quando Bacurau se torna graficamente mais violento, ele passa a ser, na verdade, menos violento.

Bacurau é resistência. Um filme de ficção, mas que poderia ser todo montado com cenas da história e da realidade atual, essas que são exibidas todos os dias nos telejornais ou com que nos deparamos nas esquinas de nosso cotidiano. Bastaria fazer pequenas adaptações, como trocar uma lanterna por um guarda-chuva, por exemplo. E nem será preciso revogar a Constituição de 1988 para isso: o estado de exceção já basta. Por vezes, é difícil perceber se estamos diante de um drone ou de um disco voador (nem todos temos a clareza de Damiano: “Cuidado com o céu”).

A opção pela ficção, contudo, permite a entrega de um final aparentemente esperançoso, mas que não sabemos até quando durará, se levarmos em consideração a história dos levantes populares que aconteceram em nosso país e no mundo. Por ora, ao menos na ficção, não temos um final em que um governante chega eufórico ao vilarejo dando pulos e socos no ar para comemorar a morte dos cidadãos.

Assim como há momentos em que temos que nos esforçar para distinguir se uma cena de Bacurau é real ou ficção, há também momentos da realidade que, se nos descuidarmos, pensaremos que seja apenas uma cena delatada de Bacurau, um final alternativo que não foi utilizado no filme. Talvez a escolha da pílula certa nos ajude com essa distinção.

De qualquer maneira, essa simbiose que ocorre na mente de quem assiste ao filme não deixa de ser um aviso: a distopia chegou. Ou apenas voltou. Afinal, enterramos vivos os nossos problemas.

 

(3) Cangaço Transgênero ou os Insurgentes
30/08/2019, Ivana Bentes, Mídia Ninja

Há algo de profundamente perturbador em Bacurau, de Kleber Mendonça Filho, talvez o mais importante filme contemporâneo sobre o Brasil distópico da era Bolsonaro. Mesmo tendo sido filmado antes das eleições de 2018 e da catástrofe política em andamento, Bacurau é um filme visionário e violento, uma ficção científica e uma ficção política que não tem nada de alegórica. Ao contrário, é explicita e brutal, de uma lucidez aterradora.

Um filme em que os clichês dos gêneros, faroeste, ficção científica, filme de terror, filmes de ação hollywoodianos, rambos e exterminadores, se encontram com um rural contemporâneo que explode clichês.

Bacurau é um extraordinário remix do imaginário hollywoodiano com a tradição do cinema novo brasileiro: a estética da fome, a estética do sonho e a pedagogia da violência de Glauber Rocha com banhos de sangue  prêt-à-porter vindos dos filmes de ação e reality shows. Um filme de crítico de cinema, de cinéfilo e de um diretor que chegou no auge da destreza narrativa.

Cinema Transgênero

Com Bacurau Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles fazem uma espécie de faroeste transgênero, no sentido dos gêneros do cinema, mas também ao explodir os clichês dos comportamentos. Um cangaço trans em que cada espectador projeta suas referências e desejos.

Mas o que o aproxima do Glauber de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de 1964, ou de O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro? Estamos falando de filmes de invenção de um imaginário rural brasileiro explodido, catártico, que inventam uma mística política vinda do povo. Vinda dos oralistas, dos interioranos, do inconsciente explodido das periferias rurais do Brasil.

Mas são muitas as referências: o Godard de Weekend à Francesa ou de Alphaville, ficção cientifica godardiana profundamente distópica. Com a diferença que não há mais nenhum romantismo em Bacurau, apenas um sarcasmo ou riso vingador ou irônico. Como na cena das execuções públicas no Anhamgabaú, exibidas na TV, cenas que ecoam os linchamentos midiáticos que são as novas formas de execuções públicas.

Mad Max Sertanejo

O filme trata de questões urgentes: crise da água e do meio ambiente, empresas e políticos com ethos miliciano, forças paramilitares, ou mercenários globais, e, atravessada por essas forças, uma nova Canudos na beira da estrada ou uma cidade Mad Max sertaneja. Uma Canudos genérica, pronta para explodir. Tudo filmado como uma espécie de reality show perverso e alucinatório, com jogos violentos e extremos e com personagens estranhamente familiares e “normais”.

Mas do que se trata o filme? Antes de mais nada de um rural contemporâneo. Um Brasil das cidadezinhas do interior completamente conectadas com o urbano. Atravessadas por redes de celular, tecnologias de vigilância e controle, telas de LED,  drones, carros e motos possantes, distribuição de psicotrópicos e remédios que controlam o humor, uma cidade rústica mas que poderia protagonizar um episódio de Black Mirror e que querem apagar do Google Mapa.

O que fazer diante do capitalismo gore?

A segunda questão é exatamente essa. O que podem (como agir, resistir, se governar) as comunidades que estão sendo atacadas e apagadas pelo capitalismo das “tripas e sangue”? E aqui tomo emprestado o conceito da mexicana Sayak Valencia para descrever a vida nas fronteiras de Tijuana, em que comunidades inteiras têm que lidar com o que chama de “capitalismo gore”, um capitalismo mafioso, da narcocultura, milícias, assassinatos.

Esse capitalismo gore, com suas tripas e sangue, é também uma construção cultural. O termo tem origem no gênero cinematográfico splatter, com o uso gráfico e extremo da violência, o grotesco e a violência explícita como linguagem. O assujeitamento e ações predatórias, onde se pode inflingir dor e  violência contra os corpos, mas também pensar a violência como necroempoderamento.

Diante de um neoliberalismo que fracassou na sua utopia de mercado, diante de uma democracia em agonia, os sujeitos, os cidadãos, a comunidade também quer partilhar e participar da violência como forma de resistência e sobrevivência.

As fronteiras, as cidade das bordas e periferias, as periferias, as comunidades apelam para um autogoverno e  ações extra jurídicas. Como em Canudos amotinada, novos laboratórios do pós-colonialismo, mas também das insurreições contemporâneas. Enclaves, tribos, comunidades distópicas e utópicas se inventando.

Os Insurgentes em uma Democracia em Agonia

Diante de fantasias de poder ultraconservadoras, diante de figuras ultraviolentas como Witzels e Bolsonaros, seres endríagos, demolidores, que surgem produzindo a gestão da morte, as comunidades se apropriam da violência como ferramenta de empoderamento e de resistência. Uma saída possível do lugar de vítimas, para o lugar de vingadores.

Bacurau traz de volta o imaginário das guerrilhas dos anos 70, sem fazer qualquer menção, sem qualquer discurso político ou panfletário, simplesmente a narrativa empurra os personagens às armas!

Mas quem são esses novos heróis de uma Canudos revisitada? O Brasil que emergiu no ciclo democrático dos últimos 13 anos, as minorias que se tornaram sujeito do discurso, os ex-quecidos do Brasil rural, ribeirinho, periférico, as figuras fronteiriças, como a extraordinária cangaceira trans, encarnada por Silvero Pereira.

Uma Canudos remixada que traz também personagens de uma dor extrema, como a mãe diante do filho executado no escuro, com o uniforme do colégio, uma cena arrepiante que vai entrar para a história do cinema brasileiro. E toda a comoção da cidade diante das mortes seriais.

Os personagens de Bacurau trazem nos corpos, nos cabelos, a cor da pele, um Brasil que emergiu e ganhou visibilidade. Homens e mulheres, negros e negras, trans, putas, os caboclos e povos originários. Magníficas as cenas de um devir índio dos personagens que andam e vivem nus nas suas casas de barro, falando com as plantas, vivendo em uma temporalidade estendida, donos de poderes mágicos e de uma cosmovisão.

Impossível não ver neste faroeste caboclo sideral, os banhos de sangue, as Marielles assassinadas, a potência das mulheres, todo um novo cangaço das lutas de maiorias, minorias e transgêneros.

Hiper realismo alucinatório

Não há nada de fantasioso em Bacurau, o filme é de uma clareza e brutalidade alucinantes, uma espécie de documentário sobre o imaginário em que estamos. O que poderia ser traumático, o jorro de sangue, a violência gore, todos os corpos dilacerados, cabeças decepadas, os requintes de crueldade e o gozo e erotismo diante da morte, se tornam elementos catárticos e redentores ao final do filme.

Diante do trauma político em que estamos. Diante da percepção cotidianas de que “estamos sendo atacados” em nossos valores, em nossos impulsos vitais, em nossas vidas, em nossas sexualidades, Kleber Mendonça apresenta uma guerrilha de bolso. Um laboratório na cidadezinha do interior de Pernambuco. Bacurau é meio Dogville de Lars Von Trier.

Bacurau é DogvilleAlphaville, Canudos, um território separado geográfica e temporalmente do resto do país. O Brasil, São Paulo são ficções distantes. Como a República era uma ficção para o arraial sertanejo. Como em Os Sertões de Euclides da Cunha, Kleber Mendonça nos apresenta a Terra, o Homem e a Luta.

E que emoção ver o cinema glauberiano e o imaginário euclidiano vivos, reinventados, remixados em um presente urgente que atualiza personagens como Antônio das Mortes, Corisco, Lampião, a mística política presente em um mesmo filme sem fim que estamos fazendo, uma brasiliana contemporânea.

Bacurau traz uma linguagem impactante. Um remix de Glauber com Tarantino e Godard, e ainda revisita o tropicalismo cinematográfico de filmes como Brasil Ano 2000, de Walter Lima Jr que proclamava em 1969 que “aqui é o fim do mundo” .

Uma ficção científica apocalíptica que é um retrato do Brasil em 2019. Não identificado, a música de Caetano cantada por Gal Costa, que abre o filme, vem diretamente deste espaço sideral, anos 60/70, nossos “negros verdes anos”, de ditadura militar e do auge de invenções na cultura, uma explosão criativa de cinemanovismo, tropicalismo, etc. Kleber Mendonça revisita o lado B do tropicalismo solar: distopia, anarquia, um tropicalismo underground e sombrio que não chegou na cultura de massas.

Efeitos Colaterais

Bacurau produz efeitos colaterais e sensoriais imediatos. Seja um estupor melancólico frente ao cenário político que estrebucha na tela, seja o efeito catártico. Ouvi pessoas que gritam e aplaudem, urram, diante das mortes horríveis, cabeças decepadas e castigos infligidos aos vilões. Outras despertam eufóricas com as imagens, a montagem, como se fossem um soco ou um pegar pelos ombros que nos sacode por inteiro. Ou ainda um choro, uma comoção, não se sabe bem por que, mas que o filme desata, como esses nós que se desfazem sozinhos depois que já ferimos os dedos da mão tentando abri-los.

São muitas as referências ao cangaço, ao sertanejo, aos jagunços, aos beatos, aos pré-revolucionários de Glauber, aos condenados da terra de Franz Fanon, aos resistentes de um Brasil que luta pela terra, pela água, pela comunidade, pela Amazônia, pela vida.

Em Bacurau, o mais importante é a comunidade e o comum. As lideranças são múltiplas, descentralizadas: a cangaceira trans,  a médica Domingas, o professor, as lideranças espirituais. Muitas cabeças e um só corpo.

Ao final uma luta, um duelo, um acertar de contas entre essa diversidade, esse Brasil, esses personagens insurgentes e disruptivos e o militarismo corporativo, o capitalismo miliciano, o empreendedorismo gore. Vai faltar caixões?

As comunidades, os enclaves, os indígenas, a juventude periférica, as esquerdas, os estudantes universitários, os negros e negras, até o momento, desconsideraram o discurso radical, de pegar em armas, usar, a força física, se armar para fazer a disputa política. Mas o que esperar diante de um Estado que age extra judicialmente e fora da lei?

Quando um governante diz que tem “que mirar bem na cabecinha” e matar seus “inimigos” como em um filme hollywoodiano ruim, ou chega de helicóptero sobre um corpo abatido pela polícia e comemora como um gol esse imaginário e esse desejo de justiçamento não produz um imaginário sem controle e perverso?

Se o Estado pode ter drones fatais que atiram para matar não veremos em um futuro imediato um Rio de Janeiro pilotando drones de autodefesa e ataques? Uma ficção política plausível e aterradora que mostra como se produzem Marighellas, Conselheiros e Zumbis, mas também Mitos, Witzels, ultra extremistas de todos os matizes.

Diante de um humanismo que fracassou, Bacurau sintetiza o Brasil brutal, distópico em que a partilha da violência e a posse de armas e de justiçamento passa a ser feita não apenas pelo “cidadão de bem” conservador, mas surge, como na década de 70 – com as guerrilhas urbanas e ligas camponesas – como uma saída possível, uma reação coletiva, diante de uma democracia e de um Estado colapsados.

Kleber Mendonça Filho não faz uma leitura piedosa de tudo o que está aí. Faz um manifesto cinematográfico, com uma linguagem sofisticada, um apuro estético, uma destreza em conduzir a narrativa. Deixa uma pergunta. Qual a saída diante da necropolítica? O necroemponderamento? A resistência vital? A violência como uma linguagem e um poder de transformação?

Mas também uma saída mágica, uma mística política. Porque “precisamos de todos os santos e orixás, amém” para atravessar o deserto e esse imaginário adoecido. Precisamos acreditar na política e no cinema, na cultura e na arte, na educação, nas resistências cotidianas, nos enclaves e motins.

Afinal o que é um cinema disruptivo? E aqui volto a Glauber e a toda a radicalidade da arte em tempos de barbárie, “deve ser uma mágica capaz de enfeitiçar o homem a tal ponto que ele não suporte mais viver nesta realidade absurda.”

Podemos também invocar outro grito de guerra das lutas contemporâneas, uma guerrilha rural e urbana que se alastra: “As putas as bi, as travas e as sapatão tão tudo preparadas pra fazer revolução”.

Nesse sentido, Bacurau também tem um forte protagonismo feminino. Lia de Itamaracá como a liderança política e mística da comunidade e Sônia Braga, uma médica de pés no barro. Bacurau despe Sônia Braga de todo um imaginário de glamour construído nos filmes brasileiros e estrangeiros ao mostrá-la com todas as marcas da idade, cabelos brancos, um corpo nu, uma mulher na sua maturidade, quase uma “médica cubana” na sua abnegação e cola comunitária, uma atriz excepcional que se reposiciona desde Aquarius e em Bacurau transcende e se reinventa. Fazer “desaparecer” uma atriz como Sônia em uma comunidade de atores incríveis e pouco conhecidos é um feito.

Os Invasores

Afinal quem são os invasores de Bacurau? “Estamos sendo atacados”, percebem os moradores. A chave não está apenas no grupo de gringos predadores da água e assassinos, do prefeito corrupto, mas também na dupla de brasileiros sulistas (em oposição aos moradores nordestinos) que se identifica com esses grupos ultra conservadores. São os primeiros a serem sacrificados. Os que se acham “brancos”, superiores a comunidade local, os que se identificam com seu próprio opressor. Esses são os descartáveis. A classe média de extrema-direita é a primeira a ser sacrificada pelos ultraconservadores. Ousem questionar e viram os inimigos também. Trágico e sarcástico, mas a cena dessa revelação no filme vale por todo um tratado sociológico. O cinema faz ver!******* [a seleção de ensaios continua]


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QNavy

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