South America

Esforços e atribulações da integração da Ásia Central

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2/12/2019, Pepe Escobar, The Vineyard of the Saker, de Nur-Sultão, Cazaquistão

Imagem: Homem puxa um cavalo pelo planalto de Suu-Samyr ao longo da antiga Grande Rota da Seda de Bichec para Och, a cerca de 200 km de Bichec. Foto Vyacheslav Oseledko / AFP

Cruzar o Tadjiquistão n direção oeste-nordeste – de Duchambe em direção à fronteira Tadjiquistão-Quirguistão – e dali, pelo Quirguistão, do sul para o norte, até Bichec via Och, é uma das mais extraordinárias viagens por terra, de todo o mundo. Ali se está em pleno território da Antiga Rota da Seda, mas que hoje está sendo promovido como trecho significativo das Novas Rotas da Seda do século 21.

Além da força cultural, histórica e antropológica, essa viagem por terra põe a nu algumas das questões relacionadas ao desenvolvimento da Ásia Central. Foi especialmente iluminador, como quando cheguei, antes, à Quinta Reunião do Clube de Astana em Nur-Sultão, Cazaquistão, e tive o prazer de moderar um painel intitulado “Ásia Central na Intersecção de Interesses Globais: prós e contras de ser a Terra Central” [ing. Central Asia at the Intersection of Global Interests: pros and cons of being Heartland].*

A Terra Central no século 21 não poderia ser jogo mais empatado [ing. could not but be a major draw]. Qualquer analista sério sabe que a Ásia Central é o corredor privilegiado, seja para a Europa seja para a Ásia, no coração das Novas Rotas da Seda, agora que a Iniciativa Cinturão e Estrada, ICE, liderada pelos chineses converge diretamente na direção da União Econômica Eurasiana, UEE, liderada pela Rússia.

Mesmo assim, menos de 10% do comércio na Ásia Central acontece nessa região, com 60% dirigido para a União Europeia. De um modo ou de outro, ainda prevalecem as práticas idiossincráticas entre os cinco “-stões” ex-soviéticos. Ao mesmo tempo, há um consenso que ajuda a medir isso, com o plano de um proposto plano de visto unificado “da Seda”, online, para estimular o turismo e a conectividade comercial.

Especialistas do Banking como Jacob Frenkel, presidente do JP Morgan Chase International, insistem em que a via rumo ao crescimento na Ásia Central implica acesso a serviços financeiros e tecnologia financeira. Nur-Sultão, vale lembrar, é o único centro financeiro, aqui, num raio de 4.800km. Há bem poucos anos, era só campo de batatas.

É tarefa dos cazaques, portanto, capitalizar as ramificações financeiras de sua política exterior independente e multivetorial. Afinal, consciente de que sua jovem nação foi “filha de uma história complicada”, o primeiro presidente Nursultão Nazabayev quis, desde o início, nos primeiros anos da década dos 1990s, impedir que se configurasse na Ásia Central um cenário de Bálcãs – como proposto, numa espécie de profecia que se autocumprisse, por Zbigniew Brzezinski em O Grande Tabuleiro de Xadrez. Recentemente, o Cazaquistão operou como mediador muito bem-sucedido entre Turquia e Rússia. Depois, foi o processo de Astana, que os cazaque hospedaram, e que rapidamente evoluiu como mapa privilegiado do caminho rumo a pacificar a Síria.

Elo ou ponte?

Frederick Starr, presidente do Central Asia-Caucasus Institute em Washington, levantou um ponto crucial, em conversa à margem de nosso debate: recentemente, a ONU aprovou por unanimidade uma resolução pela qual a Ásia Central é reconhecida como região mundial. Apesar disso, ainda não há estrutura para cooperação dentro da Ásia Central. Espinhosas questões de fronteiras nacionais entre os rios Amu Darya e Syr Darya podem ter sido resolvidas. Há bem poucas questões ainda pendentes entre, por exemplo, uzbeques e quirguizes. A maioria dos “-stões” são membros da Organização de Cooperação de Xangai; alguns são membros da Organização Econômica Eurasiana; e todas querem os lucros da Iniciativa Cinturão e Estrada.

Mas, como depois vi eu mesmo pela estrada, quando atravessei o Tadjiquistão e depois o Quirguistão, ainda há barreiras tarifárias. A cooperação industrial desenvolve-se muito lentamente. A corrupção é rampante. Cresce a desconfiança contra “estrangeiros”. E, como se não bastasse, os efeitos adversos da guerra comercial EUA-China afetam sobretudo as nações em desenvolvimento – como são os “-stões” da Ásia Central. Uma solução, argumenta Starr, seria estimular a atividade de uma comissão estabelecida para esse fim, e rumar na direção de, à altura de 2025, ter constituído um mercado comum.

No debate em Nur-Sultão, meu amigo Bruno Maçães, ex-ministro europeu em Portugal e autor do excelente O Despertar da Eurásia (Lisboa: Temas e Debates, 2018), argumentou que o que empurra as Novas Rotas da Seda ainda é o transporte marítimo e investimentos em portos. Como a Ásia Central é cercada por terra, a ênfase tem de ser na infraestrutura leve. O Cazaquistão está em posição muito privilegiada para compreender diferenças entre blocos comerciais. Maçães argumenta que Nur-Sultão deve visar a reproduzir o papel de Singapura, como ponte.

Peter Burian, Representante Especial da União Europeia para a Ásia Central, escolheu destacar os aspectos positivos: o modo como a Ásia Central conseguiu sobreviver sem conflito à sua nova encarnação como Terra Central, e como está engajada na construção institucional praticamente do zero. Os estados bálticos devem ser tomados como exemplo. Burian insiste que a União Europeia não deseja impor conceitos já prontos, e prefere servir como um elo, não como ponte. Maior presença econômica da União Europeia na Ásia Central significa, na prática, compromisso de investir $1,2 bilhão em sete anos, o que pode parecer muito, mas visa a projetos muito específicos, concebidos com finalidades práticas.

Evgeny Vinokurov, economista-chefe do Fundo Eurasiano para Estabilização e Desenvolvimento [ing. Eurasian Fund for Stabilization and Development], falou de um caso de sucesso real: a realidade da ferrovia para transporte/conectividade (apenas 15 dias de viagem) entre as províncias centrais da China, a Ásia Central e a União Europeia – que agora movimento 400 mil contêineres de carga ao ano, e continua a aumentar sua capacidade, e é usada por todos, desde a empresa BMW até todos os tipos de empresas chinesas manufatureiras. Mais de 10 milhões de toneladas de mercadoria/ano já estão viajando para o Ocidente, e seis milhões de toneladas, para o Oriente. Vinokurov afirma sem vacilar que o próximo passo para a Ásia Central é construir parques industriais.

Svante Cornell, do Instituto para Política de Segurança e Desenvolvimento, enfatizou um processo voluntário, possivelmente com seis nações (Afeganistão incluído), e bem coordenado na prática (muito além de mera integração política). Os modelos devem ser, como a Associação das Nações do Sudeste da Ásia, ANSA [ing. ASEAN] e o Mercosul (presumivelmente antes das práticas disruptivas de Bolsonaro) orientados para resultados. Dentre as questões-chaves está a necessidade de criar postos de passagem de fronteira mais amistosos, e de a Ásia Central posicionar-se como mais do que apenas um corredor.

Essencialmente, a Ásia Central deve pensar na direção do Oriente – numa simbiose de OCX/SCO/ANSA, sem perder de vista o papel que Singapura desenvolveu para ela mesma, como entroncamento global.

E quanto à transferência de tecnologia?

Como vi eu mesmo alguns dias depois, quando por exemplo visitava a Universidade da Ásia Central em Khorog, na Rodovia Pamir no Tadjiquistão, constituída pela Fundação Aga Khan, há movimento importante por toda a Ásia Central para investir em universidades e tecnocentros. Em termos de investimento chinês, por exemplo, o Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura, BAII [ing. Asia Infrastructure Investment Bank (AIIB) está financiando a construção de uma usina hidroelétrica no Quirguistão. A União Europeia está engajada no que ela define como um “projeto trilateral” – apoiando educação para mulheres afegãs e universidades nos dois países: Cazaquistão e Uzbequistão.

Tudo isso pode bem ser discutido e aprofundado num próximo primeiro encontro de cúpula, de presidente da Ásia Central. Nada mau, como primeiro passo.

Pode-se dizer que a intervenção mais intrigante no debate em Nur-Sultão foi a do ex-primeiro-ministro quirguiz Djoomart Otorbaev. Observou que o PIB dos quatro “-stões”, excluído o Cazaquistão, é ainda menor que o de Singapura. Insistiu que o mapa do caminho à frente visa a unir – sobretudo geoeconomicamente. Enfatizou que ambos os países, Rússia e China “são oficialmente complementares” e que isso “é excelente para nós”. É chegada a hora de investir em capital humano e assim gerar mais demanda.

Mas mais uma vez o fator inescapável é a China. Otorbaev, referindo-se à Iniciativa Cinturão e Estrada, insistiu que “vocês têm de nos oferecer as mais altas soluções tecnológicas.” Perguntei a ele, diretamente, se ele podia nomear algum projeto que transferisse alta tecnologia para o Quirguistão. Otorbaev respondeu: “Até aqui ainda não vi qualquer valor agregado.” Pequim que trate de voltar imediatamente à mesa de planejamento – com seriedade.*******


* Pepe Escobar tem escrito longamente sobre a noção/teoria da “Terra Central” [ing. Heartland]. Ver, por exemplo, “De volta ao (Grande) Jogo: A vingança das potências terrestres da Eurásia”, 30/8/2018, Pepe Escobar, Consortium News vol. 24, n. 242, traduzido no Blog do Alok; e “Putin e Xi sobem de nível no jogo estratégico”, 9/6/2019, Pepe Escobar, traduzido em Tlaxcala, dentre muitos outros [NTs].

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