Amérique du Sud

Acordo OPEP+ reseta e reformata a geopolítica do petróleo

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18/4/2020, MK Bhadrakumar, Asia Times  

Acordo para cortes na produção cria nova cooperação de grandes potências entre EUA, Rússia e China que terá implicações de longo alcance depois da pandemia

Acordo perfeito é aquele em que todos os protagonistas saem com algo que lhe interesse. Todos os países produtores de petróleo posicionam-se para ganhar se o preço do petróleo reagir.

Em poucas palavras, o grupo OPEP+ liderado por Arábia Saudita e Rússia concluíram, dia 12 de abril, com requintes de cautela e ousadia de gelar o sangue, um acordo para cortar a produção de petróleo a combinados 9,7 milhões de barris/dia (mbpd) para maio e junho, para reequilibrar oferta e demanda no mercado mundial e conseguir que os preços subam em plena pandemia do coronavírus.

Foi o resultado de torturantes negociações internacionais que duravam dias inteiros e que também incluíram os EUA. Esperam-se novos cortes de produtores de fora do grupo OPEP+. Especialistas preveem que na segunda metade do ano, os preços do petróleo já se aproximarão de US$40 o barril.

Os produtores mundiais de petróleo estão-se unindo para a maior iniciativa de produção cooperativa da história. As placas tectônicas estão em movimento na geopolítica do petróleo.

Historicamente, os EUA sempre trataram o cartel do petróleo como ameaça à economia norte-americana. Contudo, não só Washington incorporou-se ao mais recente programa de produção, como, além disso, o sucesso daquele programa pode depender dos EUA, cuja produção de petróleo dobrou em uma década.

Imagem: Arábia Saudita e Rússia combatiam feroz guerra pelos preços do petróleo, quando a crise do Covid-19 fez desabar a demanda mundial. Foto: AFP via Getty

Nos últimos dias, o presidente dos EUA Donald Trump manteve conversas diretas com os chefes de Estado da Rússia, Arábia Saudita e México. Embora os EUA, maior produtor do mundo, não tenha garantido que fará cortes na produção, Trump e o Departamento de Energia dos EUA enfatizaram que forças de mercado reduzirão a produção nos EUA.

Implica dizer que os cortes podem vir de ação governamental mediante decisões de corporações, com as empresas tendo de escolher entre reduzir a produção ou requerer falência. Projeta-se que a produção norte-americana caia 2 milhões de barris por dia  ao final desse ano, e talvez mais.

Sputnik noticia que “Segundo números da indústria, a redução na produção dos EUA pode levar as exportações a encolher, de mais de 3 mbpd em 2019, para quase zero nos próximos meses, removendo assim uma preocupação chave para ambos, russos e sauditas, que sempre temeram que os EUA se apoderassem de seus respectivos mercados tradicionais.”

O movimento atende a dois objetivos gêmeos declarados da Arábia Saudita – defender a própria fatia de mercado e matar, ou pelo menos reduzir muito a produção de petróleo de xisto dos EUA. A alternativa para os sauditas seria reconquistar fatias de mercado a custo enorme, produzindo petróleo suficiente para mantes os preços próximos de $20 e sustentar a operação por dois anos.

Quanto à Rússia, graças ao acordo, receberá entre 70 e 80 milhões de dólares extras, em renda diária.

Trump tuitou  dia 12 de abril que “o Grande Acordo do Petróleo com a OPEP+ está feito. Salvará centenas de milhares de empregos no setor de energia nos EUA. Desejo agradecer e congratular-me com o presidente Putin da Rússia e com o rei Salman da Arábia Saudita. Acabo de falar com ambos, do Salão Oval. Grande acordo para todos!”

Isso posto, o acordo da OPEP+, no fundo, brota de uma matriz de entendimento entre Donald Trump e Vladimir Putin. A Arábia Saudita compreendeu que melhor faria se não atrapalhasse. Putin avaliou corretamente o quanto é politicamente importante para Trump manter à tona a indústria do petróleo de xisto, para salvar empregos.

A indústria emprega mais de 10 milhões de norte-americanos e gera 7% do PIB dos EUA.

Imagem: Trabalhadores na plataforma de uma plataforma de fracking no campo de petróleo da Bacia Permian, dia 21/1/2016, na cidade petroleira de Midland, Texas. Foto: AFP / Spencer Platt / Getty Images

A grande pergunta é onde está o quid pro quo? Sempre houve suspeitas de que Putin teria um plano, quando disparou a queda no preço do petróleo de tal modo que resultou em perda de bilhões de dólares de renda para a economia russa.

Bem obviamente, a queda livre do preço do petróleo precipitou uma crise existencial para a indústria de petróleo de xisto dos EUA em ano eleitoral nos EUA que, sem demora poria Trump no centro do palco. Putin tenha ou não coreografado toda a dança, foi exatamente o que aconteceu.

Quanto a Trump, sempre desejou um engajamento construtivo com a Rússia. Três anos preciosos foram desperdiçados naquelas investigações Mueller sobre a tal “colusão russa” e aquela novela toda. Mas depois de ter conseguido reverter com sucesso a tentativa de golpe de seus adversários na novela seguinte, do impeachment, Trump agora está livre. Putin também compreende isso, com clareza.

Nesse caso especial, Trump também salva os interesses do  Big Oil, que tem enorme poder dentro da classe políticathink-tanks, mídia comercial e Wall Street – e, claro, no “Deep State.” Em versão simples, é hoje inconcebível que alguém no Departamento de Estado e arredores em Washington, por mais russofóbico que seja, atreva-se a protestar contra Trump negociar frente a frente com Putin para salvar o Big Oil.

Há amplo consenso na elite dos EUA de que Putin tem a chave para destravar uma crise do petróleo que pode ferir gravemente a economia dos EUA que já mergulha em recessão profunda.

De fato, entre 10 e 13 de abril, Trump e Putin falaram-se três vezes. Trump sabe que Putin está do lado certo da história e que é interlocutor no qual se pode confiar que manterá sua palavra. O tuíto de Trump, dia 12 de abril (citado acima) pinga de tanta confiança. Trump caminha a passos largos para uma détente com a Rússia.

Por outro lado, com um olho no ciclo eleitoral nos EUA, o interesse de Putin é costurar um acordo amplo com Trump para as relações Rússia EUA, e o mais rapidamente possível, porque uma vitória de Joe Biden em novembro significará que os EUA ampliarão os ataques à Rússia.

Imagem: Presidente Donald Trump dos EUA conversa com o presidente da Rússia Vladimir Putin em reunião dos líderes econômicos da Asia-Pacific Economic Cooperation, APEC, em Danang, Vietnã, dia 11/11/2017. Foto: AFP / Sputnik/ Mikhail Klimentyev

Putin estipulou um prazo, até setembro. Propôs a ideia – e Trump aceitou – de uma reunião dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU em setembro “em qualquer lugar do mundo” para discutir questões globais, no início da recuperação depois da pandemia de coronavírus.

Interessante que, dia 10 de abril, no momento em que o acordo da OPEP+ estava sendo finalizado, Putin aproveitou uma sessão com duas tripulações de astronautas de EUA e Rússia (uma tripulação de maioria de russos preparava-se para assumir logo depois, dia 17 de abril, o controle da Estação Espacial Internacional, depois de uma tripulação majoritariamente norte-americana), para tocar no tema das relações Rússia-EUA.

Putin disse que a cooperação no espaço “é exemplo vívido de uma parceria efetiva entre nossos países, para benefício da humanidade inteira.”

E na sequência, acrescentou: “Estamos agora tentando organizar o trabalho sobre problemas atuais. Não gosto de falar sobre isso, mas tenho de falar. Refiro-me à luta contra a pandemia, além da situação dos mercados globais. O presidente dos EUA e eu discutimos ontem mesmo essas questões, e falaremos mais sobre isso. Assim, felizmente, a cooperação está andando, e não só no espaço, mas também em outras áreas.”

Mais significativo, declaração do Kremlin sobre a conversação entre os dois presidentes dois dias depois, dia 12 de abril, dizia que “também são relevantes questões correntes sobre garantir segurança estratégica.” A Agenda de discussão ampliou-se e aprofundou-se dramaticamente.

Enquanto isso, a China também se posiciona para a reunião de cúpula em setembro. Moscou consultou Pequim antes de apresentar a proposta da reunião. (Putin reconheceu que Moscou propusera a reunião a “vários de nossos colegas e, tanto quanto compreendi, recebeu reação positiva.”)

Pequim rapidamente se movimentou para manifestar seu apoio  (menos de 24 horas) à proposta de Putin sobre a reunião de cúpula para resolver desafios globais.

Imagem: Trabalhador chinês de óleo e gás, num campo em Xinjiang, noroeste da China. Foto: Twitter

Feitas as contas, portanto, não devemos ver só as árvores e perder a floresta. O acordo OPEP+ trata de muito mais do que só o petróleo. De fato, deu o pontapé inicial para um movimento de cooperação entre as grandes potência que envolve os EUA, a Rússia e a China, e que terá longo alcance na política do mundo pós-pandemia.

Essa convergência é indicador claro de o quanto a pandemia global e a crise global do petróleo permanecem interligadas, e de que a recuperação da economia dos EUA está ligada àqueles pontos.

“O devastador impacto da pandemia Covid-19” está afetando a crise global do petróleo, a qual, como o secretário de Energia dos EUA Dan Brouillette disse, “transcende o interesse de qualquer nação específica e exige resposta rápida e decisiva de nós todos.”

O mundo está assistindo aqui ao espírito do internacionalismo em operação, como o presidente da OPEP Mohamed Arkab disse dia 9 de abril, “em plena tragédia humana de escala talvez jamais vista (…) em mais de um século. A pandemia já alcançou quase que todos os cantos do planeta.”

QNavy

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