South America

EUA: contornos de Política Exterior, no torvelinho

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7/9/2020, Alastair Crooke,Strategic Culture Foundation

Para os EUA, tudo é incerto. Muito incerto. E em todo o mundo governos examinam bem de perto as entranhas, à cata de sinais de o que talvez venha a ser a política exterior depois de novembro. Muito depende disso. Mas é como tentar espetar nuvens na parede, para fixá-las – porque, seja qual for o resultado em novembro, é provável que sequer o partido derrotado volte a ser, depois, o que antes foi. Digo, se houver ‘vencedor’.

E esse resultado é possibilidade real: quero dizer, é possível que nenhum dos partidos tenha a vitória confirmada nacionalmente. Pode acontecer, se ‘um dos’ concorrentes declarar diferença de 270 votos a seu favor no Colégio Eleitoral, mas ‘o outro’ declarar ‘legitimidade’ popular, por ter vencido no voto popular (mesmo sem ter alcançado a maioria no Colégio Eleitoral). Praticamente não há dúvidas de que a apuração de votos populares, ou alguma suspeita fraude, serão contestadas em muitos estados, e a discussão chegará à Suprema Corte.

Os EUA têm longa história de fraude eleitoral. Por isso o absenteísmo e o voto por Correio são questões tão sensíveis. Mas dessa vez qualquer disputa ‘jurídica’ pode converter-se em verdadeiro tsunami e demorar semanas para ser decidida na Suprema Corte (Republicanos inclinam-se nessa direção, apesar da vantagem ‘milimétrica’. O processo por fraude eleitoral pode ser exacerbado pela probabilidade de os votos Republicanos serem computados em primeiro lugar (tradicionalmente, os Republicanos preferem o voto presencial), o que pode dar a impressão de vantagem inicial; porque os votos postais (cuja maioria os Democratas reivindicam, sem qualquer prova) só chegam mais tarde e são computados depois. Assim sendo, esses votos ‘posteriores’ podem alterar de algum modo o quadro.

Hilary Clinton já ‘instruiu’ Biden para que não aceite oficialmente o resultado das apurações, de modo algum, sejam quais forem as circunstâncias. Como se tivesse em mente o caso de Al Gore, candidato Democrata na eleição de 2000, que relutantemente reconheceu a derrota, depois de semanas de amargas disputas jurídicas em torno dos números apurados de votos no estado da Flórida.

Gore venceu nos votos populares, com vantagem de mais de 500 mil votos, mas a virada nos resultados da Flórida garantiu a Bush os votos de 271 delegados no Colégio Eleitoral de que precisava para ser legalmente eleito, e foi empossado. Gore mostrou-se profundamente desapontado, e chegou a discordar ‘firmemente’ da decisão da Suprema Corte (movida por ira partidária, como a descreveu) que pôs fim a sua campanha.

Agora, outra vez, sim, a disputa será partidária e amarga. As apostas não poderiam ser mais altas. Pelosi declarou os Republicanos “inimigos internos” da integridade das eleições; e “inimigos do estado” – declarações que, somadas às ‘ordens’ de Clinton para que ninguém “aceite o resultado”, indicam claramente que a cúpula dos Democratas não cogita de seguir o precedente de Gore. A estratégia parece decidida. Pelosi falou sobre consequências, explicitamente, numa entrevista em julho, quando sugeriu fortemente que pode vir a ocupar a presidência dos EUA.

Trata-se aqui da Emenda 20ª (III) da Constituição dos EUA (ing. Amendment to the U.S. Constitution: “(…) se o presidente eleito não conseguir qualificação [i.e. se não tiver os votos de 270 delegados qualificados declarados válidos e legalmente corretos], nesse caso (…) o Congresso pode por lei decidir a nomeação, se nem o presidente nem o vice-presidente se tiverem qualificado, e declarar quem assume como presidente (…)”.

A chave é se algum candidato terá 270 delegados certificados até a data limite de 20 janeiro quando, por lei, começa o mandato presidencial. Sem isso, o resultado eleitoral não pode ser certificado para toda a nação; nesse caso, ao meio-dia de 20 de janeiro, o Congresso elegerá um presidente (e o Senado, o vice-presidente). Claro que, se um ou outro candidato obtiver os votos necessários do Colégio Eleitoral de delegados, de forma que não deixe dúvidas, o resultado da contagem de votos populares pode passar a não ter papel significativo. Mas se, em estado após estado, houver disputa judicial em torno de números de votos, é possível que não haja presidente oficial e legal eleito antes de 20 de janeiro.

Não há dúvidas de que esse continua a ser campo minado real – um dentre vários que cercam esses eventos Cisne Negro[1] (se o forem) e que podem mudar o curso de resultados eleitorais – como, por exemplo, a evolução da pandemia (e o modo como foi enfrentada ou mal enfrentada); ou se o mercado de ações nos EUA (ou, mais crucialmente decisivos, alguns segmentos dele) pode ser mantido em estado de levitação perene pelo Fed, até valorizações ainda mais perenes. (Trump se tornou particularmente vulnerável a um colapso do mercado, porque se aproveitou (eleitoralmente) de todas e de cada uma das altas do mercado.) E os dois partidos têm eleitorados que absolutamente jamais acreditarão – ou aceitarão – que o outro lado vença eleições limpas. O que farão para resolver o impasse… é questão ainda não respondida.

Em resumo, é possível que novembro pouco resolva; e pode deixar os EUA sem leme, à deriva, em mar pesado.

A convenção pró-Trump (e foi fortemente personalizada) foi puro e explícito espetáculo. Mesmo assim, muitos se impressionaram com a gestão cenográfica – como no encerramento, com o perfil dos prédios de Washington contra o céu, numa explosão de pirotecnias. Espetáculo. Viu-se muito evidente a mão de especialistas na montagem de reality-shows. Espetáculo foi o tema da convenção – otimismo do tipo ‘o mundo que se dane’ e exibição ostensiva do poder dos EUA. Um comentarista sugeriu que “tudo parecia acrescentar um verniz ‘monárquico’ ao que, sem ele, seria apenas um evento muito norte-americano, o exibicionismo da família Trump somado ao poder do Estado”. Talvez um tanto indecoroso e distante das doutrinas do precedente, mas ninguém dá sinais de se importar excessivamente com precedentes, nesses estranhos tempos do Coronavírus.

Sem muita dúvida, os Republicanos tiveram a vantagem do entretenimento, mas – e talvez mais significativo – foi a volta a raízes Republicanas. Trump nem tocou em temas de política exterior:

“Joe Biden consumiu toda sua carreira terceirizando os sonhos dos trabalhadores norte-americanos, mandando para longe seus empregos, abrindo as fronteiras e mandando filhos e filhas de trabalhadores norte-americanos combater guerras estrangeiras que nunca terminam.

“Diferente de governos anteriores, mantive os EUA fora de novas guerras, e nossos soldados estão voltando para casa.

“Teremos fronteiras fortes. Há anos digo e repito que, sem fronteiras, não temos país. Não temos país. Derrubar terroristas que ameaçam nosso povo e manter os EUA fora de guerras estrangeiras sem fim e muito caras.”

Claro que esses sentimentos não são novos. Trump já os enunciou em 2016. Mas o aspecto chave é que ecoam o pensamento de conservadores mais tradicionais, como Edmund Burke. E podem – se seguidos estritamente – marcar uma mudança em relação a políticas nas quais os neoconservadores vêm tendo grande influência.

É verdade que tampouco se pode dizer que a retórica de Trump dê algum sinal de seguir qualquer política clara – particularmente no Oriente Médio e na Ásia Ocidental. Mesmo assim, houve alguma coerência. Além de cortes, vez ou outra, no número de soldados, Trump, várias vezes resistiu às vozes que exigiam confronto com o Irã – se se deixam de lado os muitos Tomahawks que disparou contra a Síria; e quando assassinou o general Qasem Soleimani.

São evidentes três vetores da política de Trump: primeiro, que procura focar mais em questões domésticas, que em temas de política exterior; segundo, a geopolítica é vista, basicamente, sob lente mercantilista, não pela lente do poder militar – e que, se forçado a dar resposta cinética, Trump opta pelo ‘espetáculo’ pirotécnico (como nos fogos de artifício na convenção), não por acender o pavio da guerra.

Em teoria, a China também deveria ser vista pelo prisma mercantilista, mas não é. O consenso entre os dois partidos de Washington é tão absoluto (pode-se dizer que é o único consenso hoje visível), que o mercantilismo (e a guerra do Tesouro) aprofunda o isolamento diplomático da China, e a ideia de que o país tenha de ser contido.

Agora, quanto ao teste de realidade: Trump é visceralmente homem que ‘tem lado’ (e é sectário) no Oriente Médio. Não tem qualquer sentimento de empatia com a região, e simplesmente é incapaz de compreender por que dinheiro e business não conseguem resolver tudo. Raramente perde alguma oportunidade de tentar derrubar o Irã, ou de inflar o sonho de uma Grande Israel.

Mesmo assim, os EUA estão-se retirando gradualmente – deixando para trás uma região ainda mais esfacelada e rancorosa, parte da qual foi empurrada, precisamente pelo partidarismo exacerbado dos EUA, cada vez mais e mais, na direção do eixo em torno do qual se movimentam chineses e russos. Enquanto outra parte – espécie de último e persistente posto avançado “fiel” aos EUA, que agora teme ser abandonado, agarra-se à barra do avental israelense (sob o qual espera poder abrigar-se).

Não é situação saudável: agitação demais, excessiva fragilidade. E corre a contrapelo das realidades do novo poder e da contenção: o Oriente Médio foi convertido em ‘mato seco’, onde qualquer fogo localizado pode crescer e converter-se em conflagração geral.

Mas o componente mais marcante, para a mudança em direção à moderação sugerida no discurso de Trump na Convenção, foi o concomitante êxodo de neoconservadores Republicanos destacados, e também, a reversão da Casa Branca – que andou de lado, como caranguejo, para uma postura militar mais contida (outra vez, China à parte). Mas não é divisão preto no branco, pois muitos intervencionistas e falcões permanecem no partido, dentre os quais Nikki Haley, Dan Crenshaw e Tom Cotton.

E para onde foram os neoconservadores, todos eles? Foram à guerra. O editor executivo de The American Conservative, Kelly Beaucar Vlahos, alertou q poderíamos estar deixando de perceber os “lobos neoconservadores fantasiados de ‘Trump Jamais’, que farejam em torno do círculo de política exterior de Biden, interessados em influenciar a política dos Democratas para a China – e mais”.

“Republicanos tipo ‘Trump Jamais’ escavaram seus caminhos de minhoca até a campanha de Biden, oferecendo-se para acrescentar conteúdos àquela “coalizão” antes da eleição, e abrindo caminho até as discussões sobre política exterior, particularmente sobre a China. Dada sua história partilhada com intervencionistas de esquerda já na campanha [especialmente o pessoal anti-Putin], é razoável supor que haja entre eles neoconservadores famintos, aspirando a um lugar à mesa”.

Consta que estariam focados no ‘acordo comercial com a China, em vias de fracassar’ e na posição de Trump, que descrevem como ‘fraca’. Essencialmente, a Equipe Biden está sendo pressionada pelos estrategistas Republicanos para que assuma linha ‘mais dura’ que a de Trump, na política contra a China. Em outras palavras, a campanha vai-se definindo em torno de quem será ‘mais duro’ contra a China – e essa linha será exposta como plataforma chave da presidência.

Vlahos observa que “por mais que pareçam ser apenas uma ponta gosmenta da Direita, pensem bem! Esse pessoal são membros ‘de carteirinha’ do consenso de Washington para a política exterior, misturados com neoconservadores de tipo ‘Trump Jamais’, como Eliot Cohen e Robert Kagan (sua esposa, Victoria Nuland, foi a mais alta funcionária neoconservadora do Departamento de Estado de Clinton[2]), e sempre, desde o início, desprezou Trump. Esse pessoal entende que a política exterior de Trump, de “America First” é “profundamente mal orientada” e está levando o país à “crise”.

Tudo isso posto, para onde os EUA estão sendo levados? Bem, para lugar algum que preste – seja em termos de China ou em termos de Oriente Médio. Quanto à China, está efetivamente sendo cozinhada, pelos dois partidos, uma escalada na guerra fria, que talvez se mantenha limitada e contida; talvez não. Trump provavelmente prefere que sim; mas, cuidado, porque aí flutua outro ‘Cisne Negro’.

Na mais recente atualização da previsão do orçamento para 2020-2030, o Gabinete de Orçamento do Congresso [ing. Congressional Budget Office, CBO] disse que atualmente se projeta um déficit no orçamento federal de $3,3 trilhões em 2020, “mais que o triplo do déficit registrado em 2019”, resultado da paralisia causada na economia pelo coronavírus. O Gabinete do Orçamento também projeta que a dívida alcançará patamar recorde de 107% do PIB em 2023… e dali em diante explodirá.

Essa é a mais grave mina enterrada, de todas que há: a dívida explosiva, insustentável. O que se usa para aliviar a carga de dívida interna explosiva combinada com alto desemprego? Guerra. Os abutres de todos os partidos voam em círculos sobre a China.

A China compreende isso muito bem, e está-se preparando estrategicamente. Taticamente, suspeitamos que a China está-se fazendo de “Coelho Quincas”: sem levantar as orelhas, sem alarde, vai empurrando Washington para onde bem entende, tentando deixar passar as eleições de novembro, antes de fazer escolhas irreversíveis. A China bem fará se não contar com mudanças ou com menos hostilidade dos Democratas, mesmo que Biden seja eleito presidente. Os tais ‘lobos’ neoconservadores não estão dormindo no campo de Biden. Ambrose Evans-Pritchard escreve:

“A corrida armamentista no terreno da tecnologia verde está escalando muito rapidamente. A guerra de $2 trilhões dos Democratas a favor das energias limpas é um lance em busca da supremacia entre as grandes potências – tanto quanto tem a ver com mudança climática. E mira diretamente a China. As palavras ‘Buy America Pepper’ [“Compre Dr.Pepper norte-americana”] é texto da plataforma do Partido Democrata. O plano de Biden pode até parecer algum ‘New Deal verde’ da esquerda dos EUA, mas nada tem a ver com isso. É outra coisa, tem a ver com política de Grande Potência, praticamente cópia perfeita dos documentos a favor da estratégia nacionalista de Xi Jinping.

Se acontecer de Biden obter vitória por maioria ampla e indiscutível em novembro – provável, mas ainda não garantida – os EUA embarcarão em programa de emissões-zero até 2050, e zero líquido no setor de eletricidade em 2035. Isso será usado como arma de política comercial, para impedir que os EUA percam completamente o controle que ainda têm no mercado de energias limpas para o século 21.

EUA e União Europeia novamente se alinharão ao Acordo de Paris. As duas entidades  planejam ajuste na taxa limite de carbono para expulsar dos respectivos mercados os violadores ‘de Paris’, política que, no início desse ano foi avaliada por funcionários russos – o que é muito significativo – como ato de guerra econômica.

Biden diz que seu plano é pôr de joelhos “os bandidos econômicos globais”. Quase no mesmo fôlego, diz que o objetivo da taxa limite é “obrigar a China a se abrir e prestar contas” [ing. “hold China accountable”].

E no Oriente Médio, quem ainda espere que os EUA suavizem suas políticas para o Irã, ou algum retorno a alianças multilaterais, no caso de vitória de Biden, pode estar depositando esperanças demais em que Bernie ou o “Esquadrão”[3] suavizem os ângulos mais pontiagudos do Consenso de Washington. É óbvio demais: essa gente desse ‘Consenso de Washington’ neoconservador tem ‘garras e focinho muito mais manchados de sangue’ que a turma de Bernie-“Esquadrão”. E essa gente toda está comprometida com manter, até mesmo com expandir, a presença dos EUA no Oriente Médio. Claro que será tudo unilateral, nada multilateral.

E assim chegamos à conclusão. De início, a eleição de novembro chegou a ser vista como referendo do governo Trump, mas os eventos avançaram.

Os eleitores perceberam uma importante verdade: que a agitação civil em cidades dos EUA não é ‘questão lateral’, que é hoje o foco principal da atenção de cada cidadão nos EUA, não importa em que lado da cerca eleitoral esteja.

Para Trump, é arriscado abraçar essa discussão, porque aconteceu ‘em seu turno’ de governo. Mas a questão já é, sim, ‘Lei e Ordem’. Para Biden, dividido entre os próprios instintos e um eleitorado político que quer, literalmente, extinção dos fundos que mantêm a Polícia, o desafio, pode-se dizer, é ainda maior.*******


[1] Sobre “eleições cisne negro” na cultura política dos EUA-2020, ver aqui:

“Na obra prima de Nassim Nicholas Taleb, The Black Swan, o autor delineia três qualidades desses eventos altamente improváveis. [Eventos cisne negro] são eventos imprevisíveis (ninguém ou pouca gente os previu), têm efeitos massivos e, depois do fato, organizam-se explicações para fazê-los parecer menos inesperados e mais previsíveis do que realmente foram”.

Mas a expressão tem história muito mais importante, na Teoria da Falseabilidade, construída e exposta por Karl Popper em A Lógica da Pesquisa Científica, para demonstrar (e demonstra) a falácia da indução: “Se esse cisne que estou vendo diante de mim, agora, é branco, ‘logo’ [conclusão por indução], TODOS os cisnes são brancos”. Conclusão errada, em silogismo falacioso; basta que alguém exiba UM (1) cisne negro, para mostrar o vício do silogismo e o erro da conclusão [NTs].

[2] É uma das “três harpias”, de que Pepe Escobar fala em “As três harpias estão de volta”, 3/7/2016, Counterpunch [traduzido no Blog do Alok]: definida como “a dominatrix honorária do Kaganato do Nulandistão”.

[3] Orig. The Squad. Talvez se refira a quatro parlamentares, mulheres, negras ou ‘étnicas’, que a imprensa nos EUA tenta construir como se fosse bloco homogêneo. Sobre isso, ver Vanity Fair (16/8/2019) [NTs].

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